Você já notou um ângulo de câmera estranho ou um comentário inadequado ao assistir a uma atleta competindo na televisão? Durante décadas, muitas transmissões esportivas focaram nos corpos das atletas em vez de em suas estatísticas de desempenho, técnica e preparação física. Essa prática — criticada tanto por atletas de elite quanto por especialistas em mídia — levou a União Europeia de Radiodifusão (EBU) e a European Athletics a criarem o guia *Raising the Bar*.
Publicado em junho de 2026, o documento não é uma lei nem uma norma obrigatória para a televisão europeia. Em vez disso, serve como um conjunto de melhores práticas para emissoras que cobrem o atletismo feminino, visando promover uma cobertura mais respeitosa, tecnicamente focada e centrada no desempenho esportivo.
Abaixo, apresentamos as seis áreas-chave propostas pelo guia e as principais recomendações que podem transformar a forma como vemos o esporte feminino na tela.
Área 1: Captura de imagem e ângulos de câmera
O posicionamento da câmera determina o que o espectador vê e a mensagem que a cobertura transmite. Consequentemente, o guia recomenda evitar escolhas de enquadramento que possam ser invasivas ou desnecessárias.
- Evite câmeras posicionadas no nível do solo com ângulo voltado para cima em provas como salto com vara, salto em altura ou salto em distância.
- Evite closes prolongados em glúteos, busto, abdômen ou outras partes do corpo que não forneçam informações esportivas relevantes.
- Evite manter a imagem focada na atleta enquanto ela ajusta o uniforme ou a roupa.
- Priorize imagens que mostrem o movimento de corpo inteiro e a técnica da atleta.
Área 2: Edição e produção ao vivo
As decisões tomadas na sala de controle podem alterar completamente o tom de uma transmissão. O guia propõe que replays e imagens em câmera lenta tenham uma finalidade estritamente esportiva.
- Utilize a câmera lenta apenas quando ela ajudar a explicar um movimento técnico, uma passada, um salto ou um momento decisivo do evento.
- Evite exibir replays de falhas no vestuário ou situações que possam expor a atleta desnecessariamente.
- Não se detenha em quedas ou posições comprometedoras, a menos que forneçam informações relevantes sobre a competição.
- Limite os closes durante momentos de vulnerabilidade física ou emocional.
Área 3: Comentários e narração jornalística
A linguagem também molda a percepção do público sobre as atletas. Por isso, o guia incentiva os comentaristas a concentrarem-se no desempenho, em vez de aspectos alheios à competição.
- Evite comentários sobre a atratividade física, maquiagem, penteado ou físico da atleta.
- Não utilize linguagem infantilizadora ao se referir a atletas adultas.
- Priorize a análise tática e técnica em detrimento de referências à vida pessoal, ao estado civil ou à maternidade.
- Mantenha um tom de análise esportiva, sem dramatizar de forma desproporcional as derrotas sofridas por mulheres.
Área 4: Conteúdo digital e redes sociais
Na era das plataformas digitais, uma imagem pode viralizar em segundos. Por isso, o guia também aborda a forma como o conteúdo esportivo é divulgado.
- Evite usar miniaturas (*thumbnails*) ou imagens congeladas que mostrem atletas em poses comprometedoras para promover vídeos.
- Não utilize títulos sensacionalistas (*clickbait*) que foquem no corpo ou nas roupas da atleta.
- Modere ativamente os comentários nas plataformas oficiais para reduzir a objetificação e o assédio.
- Forneça contexto para as imagens esportivas, evitando que sejam usadas fora de sua finalidade original.
Área 5: Abordagem sobre vestuário e uniformes
As roupas esportivas sempre foram objeto de debate, especialmente no esporte feminino. O guia enfatiza que o vestuário não deve se tornar o foco principal da transmissão.
- Não utilize ângulos de câmera especiais que destaquem a peça de roupa que a atleta está vestindo.
- Evite debater se um uniforme é “curto demais” ou “revelador demais” durante a competição.
- Apresente o uniforme como parte do contexto esportivo, e não como um espetáculo à parte.
- Respeite a diversidade de uniformes, incluindo biquínis, shorts, trajes de corpo inteiro ou hijabs.
Área 6: Operações e treinamento de equipes
Para que essas recomendações sejam implementadas com eficácia, as emissoras e as equipes de produção devem assumir um papel ativo.
- Realize reuniões de alinhamento antes dos eventos para revisar os protocolos de enquadramento.
- Treine operadores de câmera, diretores e comentaristas para uma cobertura respeitosa.
- Estabeleça mecanismos internos para relatar imagens ou comentários inadequados.
- Avalie continuamente as transmissões para corrigir práticas que possam fomentar a objetificação.
Mais do que uma simples lista de recomendações técnicas, o ‘Raising the Bar’ representa uma mudança cultural na forma como o esporte feminino é compreendido. O guia reconhece que cada enquadramento, ‘replay’ e comentário influencia a percepção do público sobre as atletas.
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Quando a transmissão foca na velocidade, força, técnica e estratégia, o espectador consegue apreciar a verdadeira dimensão do esforço atlético. E esse é justamente o objetivo desta iniciativa: que as mulheres sejam vistas, antes de tudo, como atletas de elite, e não como objetos de contemplação.